Quando se fala em obstrução das artérias do coração, muitas pessoas imaginam um estreitamento parcial que dificulta a passagem do sangue. Em algumas situações, porém, a artéria coronária fica completamente fechada e permanece assim por meses. Essa condição é chamada de oclusão total crônica e faz parte do espectro da doença arterial coronariana.
Neste artigo, explicamos o que caracteriza a oclusão total crônica, quais são suas causas e riscos, os sintomas que podem estar associados, como é feita a investigação e quais opções de tratamento podem ser consideradas, sempre de acordo com a avaliação individualizada de cada paciente.
O que é oclusão total crônica?
As artérias coronárias são os vasos responsáveis por levar sangue rico em oxigênio ao músculo cardíaco (miocárdio). A oclusão total crônica ocorre quando uma dessas artérias apresenta bloqueio completo do fluxo sanguíneo por um período prolongado, em geral estimado em três meses ou mais.
Diferentemente do infarto agudo, em que a obstrução costuma se formar de maneira súbita, a oclusão total crônica é uma condição já estabelecida. Em muitos casos, ela é identificada durante a investigação de sintomas como dor no peito ou falta de ar aos esforços, ou ainda em exames realizados por outros motivos.
A presença de uma artéria fechada não significa, por si só, que todo o território irrigado por ela esteja sem sangue. O organismo pode desenvolver caminhos alternativos, chamados de circulação colateral, que são explicados mais adiante.
Causas e riscos da oclusão total crônica
Principal causa: aterosclerose
A causa mais comum é a aterosclerose, processo em que gordura, células inflamatórias, cálcio e tecido fibroso se acumulam na parede das artérias, formando placas. Com o passar do tempo, essas placas podem crescer e reduzir progressivamente o calibre do vaso.
A oclusão completa pode se desenvolver de forma gradual, pela progressão da placa, ou após a formação de um coágulo sobre uma placa que se rompeu. Quando esse bloqueio não é desfeito, o segmento obstruído tende a ser substituído por tecido fibroso e, por vezes, cálcio, tornando-se mais endurecido ao longo dos meses. Em algumas pessoas, a oclusão é consequência de um infarto prévio, reconhecido ou não na época.
Fatores de risco associados
Os fatores que favorecem a aterosclerose também estão relacionados à oclusão total crônica. Entre os principais estão:
- hipertensão arterial;
- colesterol elevado, especialmente o LDL;
- diabetes;
- tabagismo;
- sedentarismo e excesso de peso;
- idade mais avançada;
- histórico familiar de doença cardiovascular precoce;
- doença renal crônica.
A presença de um ou mais desses fatores não significa que a pessoa terá uma oclusão coronariana, mas reforça a importância do acompanhamento médico e das medidas de prevenção cardiovascular.
Possíveis riscos e repercussões
As consequências da oclusão total crônica variam bastante de um paciente para outro. Elas dependem da artéria acometida, da extensão do território afetado, da circulação colateral e da presença de outras lesões coronarianas. Entre as possíveis repercussões estão:
- isquemia miocárdica, quando o músculo cardíaco recebe menos sangue do que necessita, sobretudo durante esforços;
- angina (dor ou desconforto no peito) e limitação para atividades do dia a dia;
- redução da função de bombeamento do coração, em especial quando há área extensa com pouca irrigação ou cicatriz de infarto prévio;
- maior vulnerabilidade a arritmias e a sintomas de insuficiência cardíaca em determinados contextos.
A avaliação cardiológica permite estimar quanto a obstrução interfere no funcionamento do coração e se há músculo cardíaco viável na região afetada, informações importantes para a definição do tratamento.
O papel da circulação colateral
Quando uma artéria coronária se fecha de forma lenta, pequenos vasos podem se desenvolver ou se ampliar, conectando artérias saudáveis à região que perdeu o fluxo principal. Essa rede é chamada de circulação colateral.
As colaterais podem ajudar a manter parte do fornecimento de sangue e, em alguns casos, explicam por que certas pessoas apresentam poucos sintomas. Entretanto, nem sempre são suficientes para atender à demanda do músculo cardíaco, principalmente durante esforços físicos ou situações de estresse. Por isso, sua presença deve ser interpretada em conjunto com os sintomas e os resultados de outros exames.
Quais sintomas podem estar associados?
Os sintomas da oclusão total crônica não são exclusivos dessa condição e podem ocorrer em outras doenças, cardíacas ou não. Entre os mais comuns estão:
- dor, aperto ou desconforto no peito, geralmente desencadeados por esforço ou emoção;
- falta de ar aos esforços;
- cansaço desproporcional às atividades realizadas;
- redução da tolerância ao exercício.
Algumas pessoas, especialmente idosos e pessoas com diabetes, podem apresentar sintomas atípicos ou discretos. A ausência de desconforto não exclui a presença de doença coronariana.
Atenção: dor no peito intensa, persistente ou que surge em repouso, falta de ar importante, desmaio, suor frio ou mal-estar súbito exigem atendimento de urgência. Nesses casos, procure imediatamente um pronto-socorro ou acione o SAMU (192).
Como é feito o diagnóstico?
A investigação começa pela consulta cardiológica, com análise dos sintomas, do histórico clínico, dos fatores de risco e do exame físico. A partir dessa avaliação, o médico pode solicitar exames complementares, escolhidos de acordo com cada situação:
- eletrocardiograma, que pode mostrar sinais de isquemia ou de infarto prévio;
- ecocardiograma, para avaliar a estrutura e a função de bombeamento do coração;
- testes funcionais, como teste ergométrico, cintilografia miocárdica, ecocardiograma sob estresse ou ressonância magnética cardíaca, que ajudam a investigar isquemia e viabilidade do músculo cardíaco;
- angiotomografia de coronárias, que pode auxiliar na visualização da anatomia das artérias em alguns casos;
- cateterismo cardíaco com angiografia coronariana, exame que permite identificar com precisão a localização, a extensão e as características da obstrução, além da circulação colateral.
A escolha e a interpretação dos exames dependem do contexto clínico. Nem todos os pacientes precisam de todos os exames.
Quais são as opções de tratamento?
O tratamento da oclusão total crônica é definido de forma individualizada. Os objetivos costumam incluir o controle dos sintomas, a melhora da qualidade de vida e a redução do risco de eventos cardiovasculares por meio do controle da doença arterial coronariana como um todo.
Tratamento clínico
O tratamento clínico é a base do cuidado de todos os pacientes com doença arterial coronariana, inclusive daqueles que realizam algum procedimento. Envolve o uso de medicamentos prescritos pelo médico para controlar sintomas e fatores de risco, além de mudanças no estilo de vida, como abandono do tabagismo, alimentação equilibrada, atividade física orientada e controle do peso, da pressão arterial, do colesterol e da glicemia.
Angioplastia coronária
A angioplastia é um procedimento minimamente invasivo realizado por cateter, geralmente pelo punho ou pela virilha. Na oclusão total crônica, o objetivo é atravessar o segmento bloqueado com fios-guia especiais, abrir a passagem com balão e, em geral, implantar um stent coronário para manter a artéria aberta.
Por se tratar de uma obstrução completa e, muitas vezes, endurecida, esse tipo de angioplastia pode ser tecnicamente mais complexo do que o tratamento de estreitamentos parciais. Dependendo da anatomia, podem ser necessárias diferentes técnicas e vias de acesso, incluindo abordagens pela própria artéria obstruída ou pelos vasos colaterais. O procedimento pode demandar mais tempo, maior volume de contraste e maior exposição à radiação, e envolve riscos que devem ser discutidos previamente com o paciente.
A indicação costuma ser considerada principalmente em pacientes com sintomas que persistem apesar do tratamento clínico e com evidência de isquemia em território com músculo cardíaco viável, sempre após análise dos benefícios esperados em relação aos riscos.
Cirurgia de revascularização do miocárdio
A cirurgia de revascularização do miocárdio, conhecida como cirurgia de ponte de safena ou mamária, cria novos caminhos para o sangue chegar ao coração, contornando as obstruções. Ela pode ser considerada, por exemplo, em pacientes com doença coronariana em várias artérias, em determinadas anatomias complexas ou quando há outras condições cardíacas que também necessitam de cirurgia. A decisão costuma envolver a discussão entre cardiologista clínico, cardiologista intervencionista e cirurgião cardiovascular.
Toda oclusão total crônica precisa de angioplastia?
Não. Muitas pessoas com oclusão total crônica podem ser acompanhadas apenas com tratamento clínico, especialmente quando apresentam poucos sintomas, boa circulação colateral ou pequena área de músculo cardíaco em risco. Em outros casos, a revascularização por angioplastia ou por cirurgia pode ser avaliada.
Entre os fatores considerados na decisão estão:
- intensidade dos sintomas e resposta ao tratamento clínico;
- localização, extensão e complexidade da obstrução;
- quantidade de músculo cardíaco com isquemia e sua viabilidade;
- função de bombeamento do coração;
- presença de outras lesões coronarianas;
- condições clínicas gerais, idade e preferências do paciente;
- riscos específicos de cada procedimento.
Como é o acompanhamento após o tratamento?
Independentemente da estratégia adotada, o acompanhamento cardiológico regular é fundamental. Ele inclui a revisão periódica dos sintomas, o ajuste dos medicamentos, o controle dos fatores de risco e a realização de exames quando indicados.
Após uma angioplastia com stent, é comum o uso de medicamentos antiplaquetários por um período definido pelo médico, e é importante não interromper o tratamento por conta própria. A reabilitação cardiovascular e a adoção de hábitos saudáveis também contribuem para o cuidado a longo prazo. O surgimento de novos sintomas ou a piora dos sintomas existentes deve ser comunicado à equipe médica.
Avaliação cardiológica em Araçatuba
O Dr. Caio S. Vilela (CRM/SP 175757 · RQE Cardiologia 148966) realiza atendimento cardiológico presencial em Araçatuba/SP, na Clínica Incor. Na consulta, são analisados o histórico clínico, os sintomas e os exames já realizados, para discutir as possibilidades de investigação, acompanhamento e tratamento de forma individualizada.
Para agendar, acesse a página de agendamento.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a definição do tratamento dependem de avaliação individualizada.